Resenha: O papel de parede amarelo

Título: O papel de parede amarelo

Autora: Charlotte Perkings Gilman

Editora: José Olympio (2016)

Sentimento: angústia

Olá pessoal! A resenha de hoje é sobre o conto “O papel de parede amarelo”. Publicado originalmente em 1892, conta a história de uma mulher que é forçada ao confinamento pelo seu marido-médico durante três meses, para que ela recupere sua saúde. Narrado na primeira pessoa, o texto é o diário escrito por essa mulher que durante esse período, não podia fazer nada, tinha que se alimentar direito, não podia fazer esforços – que incluiam ler e escrever – apenas repousar. Para isso, eles alugam uma casa de campo e se instalam em um quarto decorado com um papel de parede horrendo. Quer dizer, pela narrativa você vai imaginando que ele é horrendo, mas na verdade, ele é apenas velho, desbotado e parece sujo. A mulher começa a ficar obcecada com o papel de parede e o leitor percebe no desenrolar da narrativa que ele parece materializar as suas angústias e sua solidão.

A situação da personagem do conto é a mesma que a própria autora viveu, pois Gilman um ano após seu casamento, teve uma filha, Katharine, e sofreu de depressão pós-parto. Seu marido, aconselhado pelo médico, lhe impôs esse mesmo tipo de tratamento-repouso. Em sua autobiografia a autora conta que quando o conto foi publicado, ela o enviou à esse mesmo médico.  O conto é curto mas não perde em profundidade; não é uma leitura difícil, funciona como um diário mesmo, mas nem por isso é menos denso. Pelo contrário, é pesado pois além de tratar desses distúrbios, ele evidencia como a reclusão só piorou o estado de saúde da mulher. O livro se tornou um best-seller feminista, denunciando entre outras questões, o discurso médico que classificava qualquer tipo de comportamento das mulheres como histeria. Além do Papel de Parede, outras obras de Gilman são também marcadas por questões de gênero – que ainda hoje estamos discutindo – como por exemplo a pré-determinação dos papéis sociais das crianças, a escolha de brinquedos para meninos e meninas e a opressão do ambiente doméstico.

Existem inúmeras adaptações do conto, que variam entre curtas, animações e filmes, e a maior parte sempre foca na questão do confinamento da esposa e na obsessão pelo padrão do papel de parede amarelo. Sendo assim, só quero mencionar o filme de 1989, pois ele se aproxima bastante do conto. Ele explicita bem o fato do marido ver a mulher mais como paciente do que esposa, ele a infantiliza em muitos momentos e seu excesso de cuidados é na verdade a pouca importância que ele dá à sua opinião a respeito de si mesma. Acho que a adaptação que mais se afasta
é o filme de 2012, que leva o mesmo título do livro mas é na verdade um filme de terror – de orçamento bem baixo – que envolve maldição, vampiros (!!!) e mortes de personagens secundários.

“O papel de parede amarelo” é uma leitura muito atual, particularmente eu o entendo como uma forma de denunciar como a anulação feminina pelo discurso médico, prejudica a capacidade da mulher de ser realizar enquanto indivíduo e tem como consequência, dentre as várias, o adoecimento. Em nenhum momento passou pela cabeça do marido ouvir o que ela tinha a dizer sobre sua própria saúde. Considerando as circunstâncias temporais e os diferentes contextos históricos, ficamos com a impressão de que ainda hoje existe esse mesmo tipo de situação, em que o discurso médico modela a vida da mulher – e das pessoas – ditando o que vestir, o que comer e o que fazer.

“Ninguém acreditaria o quanto me custa fazer o pouco que consigo – vestir-me, receber as visitas e governar a casa. É uma sorte a Mary ser tão boa com o bebê. Um bebê tão querido! E, contudo, não consigo estar com ele, põe-me tão nervosa.” (pág. 20)

 

2 thoughts on “Resenha: O papel de parede amarelo

  1. Izabels

    Muito atual esta questão ainda hoje vemos está situação mas existe também por parte das mulheres na parte da obstetrícia uma abdicação de seu papel como mulher. Por insegurança ou por dizerem que não é capaz. Muito triste ver um profissional médico definir relação e conduto a mãe é seu filho e ser aceito sem.nenhum questionamento pelas mães.

    1. Lívia Torquetti

      Interessante!
      Muito complicado pq as vezes foram tão anuladas que não se acham capazes ou não devem ter apoio dos próprios companheiros! Esse conto é muito atual, tanto pela questão da depressão pós-parto mas também pelo que você disse, o discurso médico ser aceito sem ser questionado!
      Obrigado pelo comentário!

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